As datas difíceis: aniversários, Natal e o primeiro ano sem alguém
Datas marcadas reabrem o luto porque comparam de forma direta o ano passado com este. O aniversário de quem morreu, o Natal e a data da morte são as mais difíceis.
Na prática, a véspera costuma ser pior que o dia. Antecipar como você quer passar, e ter uma saída combinada, costuma ajudar mais do que fingir que é um dia comum.
Por que datas doem tanto
No dia a dia, o luto se dilui em tarefas. Numa data marcada, isso não acontece: ela existe justamente para ser lembrada, e ela força uma comparação direta entre o ano passado e este.
Há também um efeito prático. Datas concentram pessoas, rituais e lugares fixos. A cadeira vazia na mesa não é uma metáfora, é uma cadeira vazia, e todo mundo vê.
As datas que costumam pesar mais:
- o aniversário de quem morreu;
- a data da morte, especialmente o primeiro ano;
- Natal e ano novo;
- Dia das Mães e Dia dos Pais;
- o próprio aniversário, quando aquela pessoa era quem ligava primeiro;
- datas privadas, que ninguém em volta sabe que existem.
A véspera costuma ser pior que o dia
Esse é um dos relatos mais frequentes no consultório, e saber disso de antemão ajuda.
A antecipação carrega o peso inteiro: você imagina o dia, ensaia como vai reagir, teme desabar na frente dos outros. Quando o dia chega, ele costuma ser mais suportável do que a espera, em parte porque já não há nada a antecipar.
Se a semana anterior estiver muito difícil, isso não é sinal de que o dia será insuportável.
Antecipar em vez de fingir
Fingir que é um dia comum quase nunca funciona, porque o corpo sabe a data mesmo quando você decide ignorá-la. O que costuma funcionar melhor é decidir com antecedência como você quer que ele seja.
Algumas decisões que ajudam:
- Escolher onde estar. Repetir o mesmo lugar de sempre, ou justamente mudar. As duas opções são válidas, e o importante é que a escolha seja sua.
- Escolher com quem estar. Estar sozinha é uma opção legítima. Estar acompanhada de uma pessoa que aguenta o assunto é outra.
- Combinar uma saída. Avisar alguém de confiança que você pode ir embora sem explicação tira o peso de ter que aguentar até o fim.
- Decidir o que fazer com a ausência. Algumas famílias abrem espaço para falar da pessoa, acender uma vela, contar histórias. Outras preferem não mencionar. Vale combinar antes, porque o desencontro nessa hora machuca.
Sobre os outros
Duas coisas costumam acontecer nas datas, e as duas doem.
A primeira é ninguém mencionar a pessoa que morreu, por medo de estragar o clima. O silêncio é sentido como se a pessoa tivesse sido apagada.
A segunda é o excesso de atenção, com todo mundo perguntando como você está a cada meia hora, o que impede qualquer momento de normalidade.
Se você conseguir dizer antes o que prefere, mesmo em uma mensagem curta para uma pessoa da família, isso resolve boa parte do problema.
O primeiro ano
O primeiro ano tem uma característica própria: cada data é uma estreia. O primeiro aniversário sem, o primeiro Natal sem, a primeira viagem sem. Cada uma delas vem com o trabalho adicional de descobrir como aquilo funciona agora.
Muita gente relata que o segundo ano é diferente, e não por a dor ter diminuído, e sim porque as datas deixaram de ser inéditas. Existe uma referência do ano anterior, e saber que você já atravessou aquilo uma vez muda a expectativa.
Também é comum que a proximidade do primeiro aniversário da morte traga uma piora nas semanas anteriores, e que ela alivie logo depois da data passar.
E se você desabar
Desabar em uma data não é retrocesso. O luto não anda em linha reta, e uma onda forte no meio de um período mais estável não desfaz o que já foi atravessado.
Se depois da data a queda não passar, se a rotina básica não voltar, ou se aparecerem pensamentos de morrer, procure ajuda. Isso não espera a próxima data.
Como a terapia entra nisso
Nas semanas que antecedem uma data, o trabalho costuma ser prático: pensar junto como você quer passar, o que quer evitar, o que quer permitir. Depois dela, o assunto costuma ser o que aquele dia trouxe à tona.
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